29/10/2009

As Reminiscências, O Passado e o Dilema da Incerteza


Eu queria ser menos romântico. E romantismo no conceito amplo, das pessoas que se emocionam com pequenas coisas ou que são subitamente interceptadas por uma vertigem ou por qualquer interrupção abrupta de sentimentos que te conduz a interromper qualquer atividade para simplesmente entregar-se ao deleite de sua epifania. Isso é bom, melhor que se drogar, pois quando se droga as coisas ficam sem sentido. No caso das reminiscências, não, pois aí todos os teus sentimentos concretos (concretos?) e ocultos dentro do que se pode chamar arquétipo de coração (sabe, não aquele coração físico, mas o coração caixinha de sentimentos que todos imaginamos ter) se manifestam, emergem como água da areia e isso é verdadeiramente incrível. Eu estava estudando Maquiavel, se o príncipe deve ser amado ou temido, quando preciso terminar de estudar para a prova de Política da próxima semana antes do final de semana para não me ver em aflito e angústia por passar sábados e domingos longe de literatura, filmes ou ócio para ter que estudar de forma que isso se torne trabalho, quando, de repente, decidi invadir um território perigoso - a parte do meu armário onde ficam coisas passadas (sim, em sentido amplo e redundante, coisas que não pertencem mais ao meu presente) - em busca de uma apostila de Filosofia para entender que tipo de argumento Maquiavel usou ao dizer que se faz isso e aquilo não se anula uma coisa nem outra pois ambas podem coexistir, entendes? Não tinha certeza se se tratava de uma condicional, de uma aditiva ou sei lá o quê, pois confundo a mecânica gramática da língua portuguesa com a lógica proposicional dos queridos filósofos (e da profe Gi), enfim...e me deparei com cartas, fotos, presentes, desenhos, cartões de aniversário e demais lembranças de meus anos anteriores que interromperam totalmente meus estudos e a busca pela apostila de Filosofia para provocar - o que só pessoas românticas podem sentir, pois as totalmente racionais ignorariam tais objetos e seguiriam na busca ou, com o insucesso disso, simplesmente retornariam a estudar tranquilamente - em minha alma tamanha inquietude e despertar de espírito que em poucos minutos me vi com lágrimas escorrendo de meus olhos e um cigarro na minha boca por estar lendo uma carta de aniversário que a Gabi escreveu pra mim em 20 de outubro de 2007. Os sentimentos foram tão intensos que cada palavra provocava o jorrar de incontáveis lágrimas. Meu rosto encharcou-se. Minha rinite atacou. Peguei um lenço. Derramei cinzas na minha roupa. A fumaça do cigarro seguiu em direção ao meu olho. Minhas mãos tremiam. Eu não conseguia mais segurar a carta. Meu peito contraiu-se. E tinham mais coisas...As palavras simples e sinceras que provocam emoções inimagináveis e um consequente (creio que não se usa mais trema, gosto de ser moderno, portanto, vou seguir a nova reforma ortográfica) turbilhão de sentimentos que não sei se conseguirei aqui descrevê-lo. Achei a carta de 2007 escrita pela Gabi para meu aniversário e lembrei exatamente do dia em que ela me entregou, lá no cursinho, toda tímida (pois todos pensavam que éramos namorados e longe disso sempre estivemos) e logo achei o cartão que ela me deu no aniversário de 2008, o qual, pela primeira vez na minha vida (em meus 20 anos) dei uma festa em meu próprio apartamento com os amigos que eu havia conquistado nos 4 anos que morei em Santa Maria, e imediatamente meu cérebro agiu como aquelas máquinas que não sei o nome, mas que rodam a fita no cinema (não sei se isso ainda existe, mas é a única analogia que posso construir no momento) e o filme realmente se passou rápido e incrivelmente frente aos meus olhos. Guile's Balcony Party foi o nome da festa do meu aniversário que significou um marco na minha vida, marco de mudança, sim, e não pelo simples evento, pois foi quando me senti realmente maduro e tudo o mais ficava pra trás, todas as tentativas de amar alguém e de ser feliz de alguma forma vivendo próximo aos meus pais ou às minhas irmãs ou até mesmo alimentando a mentira que eu havia criado para sair de casa: fazer Medicina. Creio que em 20 de outubro de 2008 eu realmente tive um insight sobre tudo o que eu vivera até então e, a partir disso, dessa reveladora epifania, mudei e senti-me mudado, o que torna as coisas irrreversíveis. Talvez aí reside a raiz dos conflitos entre eu e o Édi, pois naquele momento eu mudei tão irreversivelmente que não posso mais ser o mesmo Guilherme dos 19 anos, dos 18 anos, dos 17 anos e muito menos dos 16 anos (idade com que saí de casa e fui fazer o terceiro ano em Santa Maria). Porque de todas as fases anteriores eu havia evoluído e crescido (não importando o físico, mas o crescer por dentro) e me machucado e sofrido e experimentado (ou não-experimentado) de tal forma que nada (ou quase nada, para não ser tão radical) permanece hoje, em 2009, no modo como vivo. Não sou mais o garoto idiota e que achava ser constantemente vítima de bullying e que se considerava sempre mais feio e mais fraco que todos. Não sou mais o garoto confuso (não?) e depressivo que só usava roupas pretas, um lápis preto borrado propositalmente para passar uma imagem cadavérica e assustadora à sociedade e que não falava. Não sou o mesmo garoto que achava que fumar e beber é errado e que as pessoas jamais deveriam se render aos vícios. Não sou mais o garoto que deseja morrer por acreditar ser totalmente incompreendido e solitário no mundo. Realmente mudei, uso roupas coloridas, cabelo mais curto, sorrio, converso, não me preocupo com nenhum conceito e apenas acredito em liberdade total como filosofia de vida. E, neste exato momento, amo - sim - há aproximadamente 3 meses senti estar amando o Édi e fui conhecê-lo e descobri (mesmo com todo o pessimismo e a desilusão que fazem parte do meu eu antigo) que ele também me ama. Ainda não acredito totalmente nisso, pois me soa inacreditável e ao mesmo tempo acredito tanto que ignoro a tudo e a todos que opinam sobre minha relação com ele. Talvez agora, nesta fase da minha vida, eu não precisasse mais duvidar, pois se me considero maduro é porque tenho certeza (se bem que adultos também erram). Prefiro errar por acreditar a acreditar por errar. E também encontrei um pequeno xerox de textos do Caio Fernando Abreu que a Luci (minha irmãzinha, que foi criada comigo desde bebê até os 2 anos - eu acho) me mandou logo que entrou na UFSM - em Letras ou em Ciências Sociais, não me recordo ao certo - e vi palavras lindas do doce Caio, que o Édi também gosta agora e que diz algo como "Eu quero o risco, não digo. Nem que seja a morte". É isso, Caio resume tudo. Achei aqui também uma foto que a Gabi me deu dela, saudades, uma carta bonita das tantas que eu trocava com a Dafne, uma carta do Cesar - meu colega de cursinho por um semestre, uma carta da Carol - colega de cursinho que era julgada por namorar um professor famoso, uma carta do Tales - um guri que conheci no Halloween do ano passado e que me perguntou se eu gostava de alguém e lembro perfeitamente que respondi "Não gosto de ninguém", aí ele fez um desenho maluco e escreveu "Todo mundo gosta de alguém. Escreve isso, seu durão", uma foto de mim com meu afilhado no aniversário de 1 aninho dele, a caixinha do Marlboro Light do mal que o Édi me deu, um cartão postal da neve em Gramado, uns desenhos que a Mikaela fazia de mim, uma carta da Kati me convidando pra olhar filme (coisa que nunca fiz) com ela e com o Toni - que era meu melhor amigo e que atravessava madrugadas olhando animes comigo e ouvindo black metal e que quando começou a namorar, ele e a Kati, adotaram-me e chamavam-me de filhote. Oh, quantas coisas, quanta saudade. Eu espero não ter aborrecido quem leu toda essa merda, que funciona mais como terapia do que qualquer intenção literária de agradar a um leitor que seja, egoísmo e tal. Perdão. Torna-se inevitável a esta altura do campeonato. Uma hora da manhã e sintonizei numa rádio de gothic metal, pois tudo isso me aproxima com meu mundo de antes, aquele que ficou no passado e que o Édi não raro tenta me conduzir de volta a ele. Isso me causa estranheza, confusão de sentimentos, muitas vezes ajo com arrogância e perturbação. Eu realmente não sei se as coisas estão dando certo ou errado na minha vida, a única coisa que consigo concluir agora é que não encontrei minha apostila de Filosofia. Boa noite.


~* [ Fragile - LACUNA COIL ] *~




1 comentários:

Felipe disse...

"veio da alma e das lembranças mais reconditas."